A última noite
Dizem que quando você se casa, você tem uma pequena morte. Quase tudo se restringe ou se finda por completo na vida, antes individual e agora, compartilhada. O cara ou a mulher passa anos vivendo do seu jeito, saindo com quem quer e voltando muitas vezes com quem não quer. E no outro dia, é outro dia simplesmente. Nada de cobranças, nada de dores de cabeça, nada de nada. Aí ele ou ela começa a namorar. Beijos aqui, cobrança ali… Pronto. Está dado o primeiro passo pro sagrado matrimônio, que as vezes nem é tão sagrado assim.
Ele toma coragem e pede. Se ajoelha e tudo mais. Apronta uma papagaiada enorme para ela ter aquela experiência única e mal sabe ela que o circo foi montado através de pesquisas na internet, bate-papo com amigos e dicas daquela parente dele (que acaba contando pra ela o pedido de ajuda dele).
Ela, sem saber por onde começar, é abraçada por muitas e invejada por muito mais. Ele, inebriado de amor, passa a maior parte do tempo com aquelas ilusões todas de homem apaixonado, até que quando o “fim está próximo” ele pensa “O que estou fazendo!?”
Por mais decidido que ele esteja, aquele “um” que sempre tem em todo lugar, abre seus olhos. Alguns dão sorte do “um” ser legal, compreensivo, que dá bons conselhos… ou pode ser aquele “um” chato que fala alto e conversa te cutucando, mas pelo menos é útil para alguma coisa. Mas ele retruca, diz que está certo do que quer e que a pelada na sexta, o futebol no sábado e tantas outras práticas sagradas não irão acabar nunca!
Vai dormir e pensa “há quem estou querendo enganar…” E como num desenho, vê o que costumava fazer ganhar asas e voar para longe do quarto.
Ela já pensa nos filhos, na casa, naquele homem que vai levar pra cima e pra baixo e ai dele se não estiver de acordo com algumas regras. Cumplicidade? Nem sabe o que é direito.
A data está próxima. O “um”, vendo que não há mais jeito, diz: ”Cara, já que ta indo pra forca, seu último dia será de rei!”. Só faltou falar a frase chave, que, com a empolgação que ele falou, merecia ser dita letra a letra: despedida de solteiro.
Ah, as streapers… a vodka nos umbigos… os flamejantes nas tacinhas…
Ele nessa hora se transforma nela, dizendo “não, não!” e no fundo “sim sim!”. É vencido pelo cansaço da insistência dos amigos, que querem aproveitar que não é com eles, e vai pra farra. Farreia até não poder mais, pensando que era a última vez na vida dele. Estava certo de seu destino “fatídico”.
Ela, longe dali, revira os olhos de raiva, mas se faz de compreensiva. E escuta: “Calma amiga, ele não vai te trair, mas é bom ficar de olho né, nunca se sabe”. Sempre tem uma…

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